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8 de março chegando: uma mensagem para refletir.

flores em 8 de março

Um dia desses, enquanto eu descia pelo feed do Facebook, eu vi um meme que minha amiga postou, sobre os debates esse ano, brincando com o BBB etc, e nesse estava “08 de março: dar rosas ou não?”, eu ri, porque me fez lembrar um textão que escrevi ano passado com muita revolta, porque uma conhecida, que mora no mesmo bairro que eu, estava sendo perseguida pelo ex marido, porque, adivinha, ele não aceitava o fim do casamento, ameaçando ela, fazendo terror nas filhas, invadindo até uma gira, somos umbandistas, pra bater nela e no namorado dela, foi um caos e me gerou muita revolta e gera até hoje.

Então eu me deparo com essa pergunta novamente, agora de maneira mais divertida, afinal no dia 08 de março dar ou não dar rosas? Hoje, mais calma, mantenho a minha resposta de sempre: NÃO, olha, nada contra vocês quererem nos presentear com rosas, mas numa data de luta, não sei, é como se uma rosa fosse tapar o fato de que ainda somos silenciadas, somos desacreditadas, é como se só no dia 08 de março somos notadas e parabenizadas e, assim, depende porque precisamos sorrir, um sorriso amarelo, mas sorrindo, até a meia-noite do dia 8 de março somos guerreiras, lindas, maravilhosas, Mulher Maravilha, uma flor que merece outra flor, mas deu meia-noite e um, voltamos a ser as histéricas, enraivecidas, as que estão de TPM (porque nos impomos em alguma coisa), putas, vagabundas, depois da meia-noite voltamos a ouvir:

"Ah mas, porque não denunciou antes" "mas você tem certeza que foi assédio???" "Ah mas ele é um garoto (o cara tem 40 anos) não sabia o que tava fazendo".

Eu sei que tá sendo clichê tudo o que estou falando, mas é um clichê que passamos todos dias, o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking global de feminicídio e, não vou dizer todos os dias, mas acho que não tem uma semana em que eu não veja notícias de mulheres que foram espancadas, mortas, estupradas, e não vamos esquecer a violência psicológica, que fere profundamente a alma, e o agressor? Geralmente sai impune, se for branco e rico é certeza que vai ser absolvido, por falta de provas, sendo que há provas, aquele comum que não devia ser comum, entende como é cansativo?

Todos os dias lidar com essas impunidades e perceber que, não, eu não estou segura, perceber que toda essa luta, constante, parece ser um murro em ponta de faca, conquistamos muitas coisas, mas ainda é muito pouco, porque ainda somos objetificadas, porque se um cara que me envolvi não aceitar o fim do relacionamento eu corro risco de vida, porque toda a denúncia que eu fizer será invalidada, com argumentos fracos, covardes e serei silenciada, porque né, no fim, a culpa é minha.

Quando eu vou sair para um encontro com um cara de conheci num aplicativo, eu aviso para algumas pessoas, envio a localização de onde estou, em tempo real, e ainda combino:

“se eu não te mandar mensagem até às 22:00, me manda, se eu não te responder até meia-noite, liga pra polícia”

Paranóica? Exagerada? Ou apenas uma rotina normal de uma mulher que vai encontrar um desconhecido? Ir na casa do cidaão no primeiro encontro? Fui uma vez, mas rezando para que o cara fosse legal e eu não tivesse caindo numa emboscada, você sente esse medo, amigo?

Não sei se esse ranço pelas rosas no 08 de março é só meu, ou esse ranço pegou geral pra todas nós, mas é que, sabe, é a vida toda o machismo sendo empurrado goela abaixo, até que a gente desperta, se revolta e percebe que é uma luta constante, sem descanso e que não vai ser uma rosa que vai amenizar tanta porrada que a gente leva no dia-a-dia.

Então, aqui vou usar outro clichê, porém muito necessário: em vez de rosas nos dê respeito, mas respeito mesmo, quando um parça teu agredir a namorada dele, denuncie, se você ver a sua vizinha sofrendo violência, denuncie, se puder, intervenha, quando uma mulher for colocar o ponto de vista dela, escute, não interrompa, principalmente se for interromper a fala dela dizendo as mesmas coisas que ela só que em outras palavras, um amigo foi machista???? Disse algo machista??? Piada misógina??? Chama ele de canto e diga, amorosamente, apontando o machismo, se ele não gostar, explique que ele tá sendo um babaca, e sim respeito, respeite o NÃO, respeite meu corpo, respeite quando a gente não querer mais, faça terapia, se puder, pra conseguir sair das amarras da masculinidade tóxica, assim, evitando que você peça desculpas por ser homem, ou fazer uma música dizendo a mesma coisa.

Uma parte de nós já faz terapia, as que conseguem ter acesso, mas isso já é um outro assunto, pra lidar com todas as sequelas que, enfim, se você chegou até aqui já sabe né, super recomendamos.

Apoie o trabalho de uma mulher, aplauda quando uma for promovida, sem pensar que ela “deu” pra alguém, aliás pare de pensar que se a mulher é bem sucedida é por causa disso.

E digo tudo isso sendo uma mulher cis, que já tem toda essa realidade, as manas trans e travestis, com certeza devem ter mais coisas pra complementar ou outras coisas pra dizer.

Com certeza você deve estar pensando “amiga, você está problematizando uma rosa!!” “descansa militante”, talvez você tenha razão, talvez eu precise descansar mesmo, fechar os olhos e aceitar a rosa de bom grado, dar o meu sorriso amarelo e agradecer, mas acontece que a partir do momento que você abre os olhos pra realidade fica difícil fechar, sabe, fingir que eu não tô vendo, então eu não vou aceitar, mas, se ainda insistir, eu sugiro que me dê um jantar em um lugar daora sabe ou um vale coxinha de frango com catupiry, porque se você der rosas provavelmente elas irão pro lixo.

Colunista: Natalia Breves