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Objetificação X Empoderamento

objetificação x empoderamento

Para este mês, eu pensei em escrever sobre a objetificação/sexualização feminina e o empoderamento, li artigos, assisti vídeos, me baseei numa personagem de uma série que assisti e minha mente ficou entulhada, parecendo a pia aqui de casa que ficou entupida, foi um pouco difícil alinhar as ideias, nada saía do lugar, mas como uma boa taurina com ascendente em touro, fui teimosa, insisti, e eis que saiu essa observação…

Eu queria falar sobre a objetificação porque é algo que vem martelando na minha cabeça ultimamente, principalmente, por artigos que já andei lendo, páginas do Insta nos alertando sobre isso e ao mesmo tirando a venda que cobria nossos olhos.

Falar sobre a objetificação feminina, pra mim, é como entrar em uma área nebulosa, porque há uma linha muito tênue, ao meu ver, entre a objetificação e o empoderamento, principalmente de corpos que não fazem parte do padrão de beleza, corpos gordos, corpos com deficiência, estimulando essas mulheres que não se encaixam no padrão que não se
escondam mais e se empoderem de si, mas ao mesmo tempo a gente corre o risco de entrar na nesse terreno da objetificação e é aí que eu cito a personagem de uma série que assisti, a Kat de Euphoria.

[cuidado, o texto a seguir contém spoilers]

A Kat foi uma personagem que me identifiquei logo, uma garota fora dos padrões de beleza que, por causa do bullying e a rejeição que sofreu do namoradinho da escola por ela ter engordado, passa boa parte da sua vida meio que se escondendo, já que, por conta da infância, acreditou que não era atraente, bonita o suficiente. Até que um vídeo dela é
vazado e meio que ela faz do limão uma limonada, a primeiro momento, porque ao invés de humilhação ela recebeu um desejo (vamos assim dizer), ela se sentiu desejada, e com base nisso ela se “empodera”, mas veja bem, esse empoderamento veio de uma objetificação, ok que depois disso ela começou a tomar posse de si, a se sentir poderosa, mas esse poder que ela sentia vinha da objetificação onde ela, inconscientemente, se pôs, esse poder dependia de terceiros, talvez porque foi a primeira vez que ela se viu e sentiu vista, mas ainda assim ela foi vista como objeto para os caras que ela se comunicava, via internet, ou se relacionava, ela ainda era um objeto mas com uma falsa sensação de poder, e ainda assim ela era explorada, o corpo dela foi explorado, mesmo inconscientemente.

Objetificação e empoderamento
Imagem: Adoro Cinema

Então é uma personagem que mostra o falso empoderamento, como se objetificar o corpo sexualizá-lo, fosse um poder dela, mas não é, no fim só alimenta uma engrenagem nessa sociedade patriarcal, que sempre irá nos colocar nesse local de objeto.

“Ah pronto! Vai problematizar minhas foto de biquíni agora!!”

Calma, eu já vou chegar aí, quando eu leio essa questão da objetificação eu penso em umas coisas: uma é que os tempos são outros, mas a sociedade, principalmente a mídia, ainda estimula essa objetificação desde sempre, mas agora maquiam com o discurso do empoderamento, mas se a gente parar e analisar, sempre fomos socializadas como objetos, sempre nos colocaram numa prateleira para sermos escolhidas, estimulando assim uma rivalidade e quem se destacasse era o prêmio. Se pararmos para analisar, e ver as mulheres de antigamente, elas não escolhiam com quem iam casar, ou se iam casar, ou o que elas iam fazer com a própria vida, era muito difícil isso acontecer.

Então, ao meu ver, ainda há muitas amarras ainda que nos prendem nesse sistema, porque hoje em dia as amarras têm flores.

Outra coisa que reflito nisso tudo é que, talvez, não vou dizer todas mas, muitas de nós, principalmente as que estão fora dos padrões de beleza, ao se empoderar, fortalecer o amor próprio, deu uma passada nesse terreno da objetificação, porque é legal se sentir desejada, já que por muito tempo nos escondemos e como tem o discurso “libertador” e
“empoderador” achamos que estamos quebrando um tabu, quebrando as engrenagens dessa sociedade, mas na realidade só estamos nos colocando no mesmos lugares que sempre nos colocaram, mas só mudaram a decoração, precisamos estar atentas sobre isso, porque quanto mais eu me aprofundo nisso eu vejo como nós fomos criadas, socializadas, dependendo da aprovação de terceiros, entende?

A objetificação, para mim, tem muito a ver com a opinião de terceiros também, como se toda a nossa auto-estima dependesse do olhar do outro, principalmente, o olhar masculino…Claro que o buraco é beeeem mais embaixo.

Voltando à Kat, ela sai desse terreno, no final da primeira temporada, mas entra em parafuso, porque como o seu empoderamento estava baseado na sexualização, quando ela para de ser Cam Girl, é como se ela tivesse perdido o solo, perdido todo o seu poder, mas infelizmente na segunda temporada não é abordado isso, a atriz que interpreta a Kat brigou com o diretor da série, com isso a personagem foi totalmente apagada, mas eu queria ver o que vinha depois para a Kat, ela realmente se empoderando de si e percebendo que sim ela é linda e perfeita independente de como a sociedade a objetificou ou incentivou ela
inconscientemente a fazer isso, que o amor próprio dela independe de terceiros e que sim vai ter dias que ela vai se sentir uma grande gostosa e outros dias não e tá tudo bem.

Objetificação e empoderamento
Imagem: Vice
Talvez eu queria ver esse desenvolvimento da personagem pra usar como bússola, porque a gente fica meio desnorteada, mas logo se encontra e começa o seu caminho real, e começa a se apoderar de si.

“Tá, mas onde você quer chegar com esse textão?”

Pra ser bem sincera, nem eu sei (risos), eu queria trazer uma reflexão sobre isso…Tô querendo dizer que você não pode postar sua foto de biquíni, ou lingerie ou seminua? Não!!! Você faz o que você quiser, mas antes de postar, pense:

“Eu quero postar porque eu mostrar que eu estou me sentindo bem comigo mesma e quero mostrar isso pras pessoas independente do que elas pensam?” ou “eu quero postar porque eu quero uma certa aprovação” de quem você quer essa aprovação? De qual público você quer esse “biscoito”? Reflita “onde está a minha liberdade aqui?”.

Eu sei que empoderamento tem um significado muito mais abrangente e profundo, mas pesquisando sobre, eu li num site “como se empoderar?” e lá a primeira dica, era a auto-estima e o amor próprio, primeiros da lista, primeiros na base, porque tudo começa aqui, tudo começa quando você assume a si mesma, abraça tudo o que você é, suas sombras, sua luz, o empoderamento começa da gente, de dentro, e aí você se junta a
outras mulheres e fortalece elas também.

Colunista: Natalia Breves