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Sim, a Miranda é a vilã!

Dia desses eu estava rolando o tik tok, quando me deparei com vídeo de um cara falando sobre o filme O Diabo Veste Prada e o assunto era: quem era o verdadeiro vilão – claro que ele citou os amigos da Andy e o namorado dela.

Eu me lembro que esse assunto foi bem debatido uma época e, cara, era bem acalorado (participei de alguns), foi algo assim que dividia famílias (antes de 2018), e sim, por um tempo, eu defendi os amigos e o namorado da Andy, porque eles queriam que ela visse o que ela estava se tornando e que o trabalho dela era super abusivo, que a Miranda era SIM a vilã do filme, olha, muitos argumentos pensados, mas teve uma hora que o assunto perdeu força e ninguém mais tocou nele e a vida seguiu, até que eu vi ele ressurgindo, tempos atrás numa postagem do Buzzfeed e alguns dias atrás no tik tok, aqui eu vi dois vídeos sobre isso e fiquei um pouco surpresa de que ainda há pessoas que defendem a Miranda, colocando ela apenas como uma mulher de personalidade forte que foi demonizada por ser mulher, que nunca errou, e eu continuo discordando, claro que, minha opinião sobre os amigos dela e o namorado dela mudou, mas vou chegar lá.

O que a Andy passa no filme é o que muitos de nós já passamos (e olha que a Andy é um pouco privilegiada ali na história, tem um pai ali que sempre que pode oferece um dinheiro). Eu acho que muitos de nós já passamos por trabalho tóxicos, que fud3ram nossa saúde mental, mas que iam valorizar nosso currículo para depois conseguirmos um bem melhor e nos sacrificamos, ou aguentamos para pagar a faculdade, ou simplesmente para sobreviver, para não faltar comida no prato dos filhos.

Então, exaltar a toxicidade da Miranda, ou querer passar pano dizendo que ela não foi compreendida porque mulheres fortes são demonizadas, não rola. Ela pode sim ter passado por poucas e boas pra conseguir o cargo de editora chefe, ter sacrificado muitos momentos da vida dela, mas isso não dá o direito de ela ser tóxica, de ligar depois do expediente para a Andy falando pra ela dar os pulos dela e conseguir um jatinho de última hora pra ela voltar pra casa, e, com a Andy não conseguindo, no dia seguinte fazer um discurso pra funcionária se sentir um lixo, uma inútil e culpada, ou pra simplesmente se vingar porque a mesma, novamente fora do horário de expediente, foi levar um material da revista e acabou pegando ela e o marido brigando, ela fala pra Andy se virar e conseguir um livro que nem foi lançado ainda e quando esta consegue, ela ganha um “parabéns”? Não, ela leva o trabalho de ciências das filhas da Miranda pra fazer em casa, novamente fora do expediente, então não a Miranda não é mal compreendida ela só é uma exploradora FDP mesmo.

Crítica social f*da

Eu acho que se é pra refletir sobre O Diabo Veste Prada – o que tem muito a se discutir, principalmente as leis trabalhistas – podemos colocar uma lupa em algo que sutilmente, ou não intencional, nos trás que é uma das faces da desigualdade social, claro que o filme é ambientado em Nova York e que não é sobre isso, mas se a gente parar pra pensar ali mostra sim, só pelo fato da Andy comer o pão que o diabo/Miranda amassou porque naquele emprego ela conseguiria uma referência para trabalhar no que ela tanto queria, que é o jornalismo. Isso mostra que a nossa sociedade não é justa e não oferece a mesma oportunidade para todos, ali já mostra que se você não tem QI (Quem Indica) você pena para conseguir uma vaga digna, se você não tem QI tu deixa um rastro de sangue, suor e transtorno psicológico, querendo ou não, o filme mata ali todo esse discurso de meritocracia, vai pro ralo e deixa escancarado o que hoje em dia a gente discute e aponta, não sei se foi intencional do diretor ou do roteirista, mas se tivermos um olhar mais crítico no filme, vamos desenterrar mais debates ainda.

Eu procuro pensar que todo esse “louvor” à Miranda se deve à atuação impecável da diva Meryl Streep, então por isso a simpatia a Miranda: porque amamos a Meryl, ela é maravilhosa, vamos fazer o quê?! Qualquer papel que essa mulher fizer, ela vai entregar tudo, ponto.

Mas e os amigos dela e o namorado??? Bem, depois de um tempo (e alguns trabalhos tóxicos) eu percebi que existem formas e formas de dar apoio a um amigo que esteja passando por um trabalho assim, mas vamos ressaltar algumas coisas que acontecem no filme.

A Andy muda, não só o modo de vestir, mas começa a entender o mundo que ela trabalha, que no começo do filme ela até tirava um sarro com os amigos dela e o boy, ela começa a respeitar o mundo da moda e, querendo ou não, é uma experiência muito boa que ela vai levar, foi um aprendizado, e o que acontece? A galera valoriza isso, vê essa evolução? Não, acabam só falando que ela mudou muito e que pipipipopopó. Enfim, claro que eles tentaram alertar sobre o quão nocivo estava sendo aquele trabalho, mas em nenhum momento houve um “olha, eu sei que você precisa desse trabalho, mas tá te fazendo mal, não é hora de começar a ver outro?” Apontar as coisas de maneira mais amorosa, mostrando que você está ali, independente do que aconteça, e que vai dar todo o apoio, não só acusar, porque isso só faz a pessoa se afastar, e isso vale pra todo tipo de relacionamento tóxico que a pessoa está passando, mostrarmos que estamos ali e, claro, ir dando uns toques é o que importa, porque isso não vai afastar a pessoa de você e, mesmo inconscientemente, ela vai saber que ela tem pra onde correr quando ela despertar.

E tudo isso também vale pro namorado dela…

Mano sua mina tá num trabalho abusivo, que suga ela o tempo todo, em vez de fazer bico porque ela não pôde ir no seu aniversário, por conta desse trabalho, conversa também, aponta, porque às vezes a pessoa tá tão mergulhada no meio de tudo aquilo que ela não consegue enxergar o que tá rolando.

Então pra mim, os amigos e namorado da Andy, faltou diálogo, faltou compreensão, empatia, eu sei que falando é fácil e que na prática o bagulho é doido, mas ultimamente eu acredito que uma boa conversa resolve bastante coisa e te poupa de cabelos brancos ou queda dos mesmos.

(E olha que quem está falando isso é uma pessoa que quando vê um conflito há um quilômetro de distância desvia que é uma beleza, mas ultimamente eu tenho evitado fugas).

Então minha conclusão sobre O Diabo Veste Prada é que, sim, a Miranda sempre vai ser a vilã e que a Andy não larga o trabalho de assistente pessoal pra ficar com o boy (sério, onde vocês viram isso???) fica bem claro que a Andy não quer se tornar alguém como a Miranda, que sabota os sonhos dos amiguinhos pra manter seu cargo de editora chefe, e que finalmente ela toma coragem e vai em busca do que sempre foi objetivo dela desde o início do filme, o trabalho como jornalista, independente se a Miranda fosse dar a referência que ela precisava, e que acabou dando, e ela consegue o emprego que ela tanto queria.

“Ah mas ela vai atrás do ex”, eu achei isso meio bosta também, mas ali não mostra que eles voltam, só mostra que ela foi ali meio que pra pedir desculpas e seguir com a vida.

No mais, é isso, não sei serei cancelada (kkkk), a Meryl Streep entrega uma interpretação incrível nesse filme e em todos que ela faz (já assistiram As Pontes de Madison? Eu morri nesse filme, super recomendo) então eu entendo essa simpatia com a personagem, porque a gente ama a atriz!