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A reprodução da violência contra outras minorias

Lutando contra violência contra outras minorias

Desde que eu conheci o feminismo em 2014, estou envolvida em diversas lutas e causas sociais. O empoderamento de minorias, os gritos, a luta por direitos, parecia como uma peça que se encaixava perfeitamente em mim, que sempre faltava. Não é à toa que hoje sou estudante de Direito.

Já falei sobre empoderamento feminino, tive blog anti gordofobia, me uni à luta das mães falando sobre maternidade neuroatípica e compulsória e agora estou falando muito mais pelos direitos das crianças e adolescentes, incentivando a criação com respeito e divulgando o método da Disciplina Positiva, em uma tentativa de fazer com que a próxima geração seja feita de pais melhores do que somos hoje e que cada vez menos crianças e adolescentes passem por uma criação violenta e que tenham seus direitos respeitados. E é com um certo aperto no coração eu digo que eu nunca vi tantas pessoas se juntarem para irem contra os direitos de uma minoria e, pior, são preconceitos e violência aceitos e incentivados pela sociedade, incluindo as próprias minorias.

Como meu trabalho principal é no TikTok, lá eu sou constantemente marcada em vídeos que fazem “humor” com violência contra crianças e adolescentes. São vídeos sobre dar vassouradas, pauladas, afogar crianças, atirar na frente do trem, bater até fazer desmaiar, uma infinidade de violência, um método mais atroz que o outro, produzidos não apenas pelo patriarcado branco de elite, mas também justamente das minorias que sofrem das mesmas violências que eles querem impor contra as crianças, que são seres que sequer conseguem se defender.

Com um discurso generalizado, eles se defendem dizendo que toda criança é chata, toda criança é insuportável, que toda criança tem que apanhar para ser educada. Da mesma forma que vemos os mesmos discursos que dizem que “todo gay é promíscuo ou pedófilo” (vale lembrar que para LGBTfóbicos não existe a enorme variedade que habita o Vale), que “todo negro é bandido”, que “todo macumbeiro é do diabo” e vários discursos de ódio que vemos todos os dias.

É aí que entra o meu questionamento: se dizemos que as pessoas não precisam fazer parte das minorias para serem nossos aliados, por que essas minorias não são aliadas da infância e da adolescência, já que é uma minoria da qual ninguém pode escapar? Nem todos temos a mesma etnia, a mesma fé, o mesmo gênero, a mesma orientação sexual, a mesma deficiência (e alguns não têm deficiência alguma). Mas todos, impreterivelmente, já fomos crianças e adolescentes e tivemos nossos direitos desrespeitados até pelas autoridades que deveriam tutelar esses direitos previstos no ECA. Em qual momento nós, que fazemos parte não só de uma, como várias minorias, decidimos que crianças e adolescentes são seres humanos de menor valor, da mesma forma como somos considerados por outras pessoas?

Eu, como autista, mãe de autista, queer, umbandista, mulher, gorda, praticamente um combo de minorias em um metro e meio de espaço, não poderia deixar de levantar esse questionamento. E nem é só por ser mãe, embora a maioria das pessoas que fazem parte dessa luta, são pessoas que têm filhos.

Obviamente não vamos mudar essa visão social do dia para a noite, assim como não mudamos a visão sobre diversos outros assuntos. Mas se não começarmos a questionar isso, não vamos conseguir mudar essa visão nunca.

Crianças e adolescentes são seres humanos de igual valor e são seres frágeis que sofrem abusos e violência dentro dos próprios lares, lugares que deveriam ser seu esconderijo de um mundo tão cruel, que sofrem violência física, verbal, emocional, das mesmas pessoas que gastaram dinheiro e fizeram todo tipo de show durante a espera, mostrando ao mundo o quanto estavam orgulhosos porque estavam esperando um bebê. Em que curva aquele amor, aquele carinho, se tornou o ímpeto de violar a dignidade física e moral desses seres humanos? Em que ponto essa ideia morreu?

Para encerrar, cito aqui a célebre frase de Paulo Freire:

“O sonho do oprimido é se tornar o opressor”.

Colunista: Aline Giorlando